Talvez eu tenha sido pra ti um brinquedo, aquele que pegavas pra brincar quando não tinhas nada pra fazer e que, na maioria da vezes, jogavas pra debaixo da cama, pra dentro do teu guarda-roupa ou em qualquer caixa de papelão em que ocupavas com brinquedos velhos. E quando aparecia alguém pra me tirar dos lugares em que me esquecias, logo chegavas e com força me pegavas, fazendo parecer, e tentando me convencer, de que eu era só tua e somente as tuas mãos poderiam me tocar. Sobretudo, me usavas, as vezes, pra desabafar sobre os teus quereres, e nessas horas eu desejava que me deixasses cair ao chão, me quebrasses ou desse pra qualquer pessoa que aparecesse na porta da tua casa pedindo qualquer coisa que não quisesses mais, e então eu só faltaria me jogar pras mãos dessa pessoa, quase que pedindo pra me levar embora dali, que a verdade é que eu merecia um dono melhor. Entretando, no fundo, eu sei que não me darias, porque eu me tornei o teu passatempo favorito e nenhum outro preencheria o buraco sem fim que a minha ausência haveria de causar de ti. A mesma ausência que existe agora entre tuas mãos, pois esquecestes que pra me manter inteira tinhas que cuidar de mim, e deixar de me ver apenas como tal, ao invés de me jogares nesses lugares que fizeram eu me quebrar parte por parte, me tornando agora pequenos pedaços de um brinquedo que, um dia, tivestes a sorte de ter inteiro em tuas mãos. E estas, secas e pesadas, não são nem serão capazes de me concertar. Não as suas. Não pra você.

Um comentário:

Mara faturi disse...

Boneca linda,

passando aqui para te dar um afago e dizer: junte esses pedaçinhos e saia por aí perfumando os dias e luas;)
bjos