Fostes embora e me deixastes aqui, com aquelas anotações que fazias no meu caderno nos dias em que passávamos as tardes no Parque, nada além de meras bobagens escritas enquanto estavas distraído. Eu era a tua distração, falavas-me sobre as tuas noites quando moravas naquele interior que de tão monótono fazia tu ires em busca de alguma bebida forte, fumos, conversas jogadas fora com pessoas que hoje talvez já não existam mais - lembro-me daquele cara, amigo teu, que cometeu o suicídio. E eu sempre te prestando a atenção, momentos em que existia apenas eu e tu, para depois, acabando os assuntos, existirem aqueles outros que passávamos a observar, dublar conversas, tentar advinhar sobre o que podiam estar pensando. Ríamos tanto, tu com os teus cigarros, eu com os meus, apenas deixando as horas passarem, e passavam tão devagar que parecia caber a história de um mundo todo até o momento em que o sol começava a se pôr. Depois tu seguravas a minhas mão e me levava até o próximo caminho, o último momento, onde abraçavas-me e dizias que era pra eu me cuidar, então eu ia embora para um lado e tu para outro. No dia seguinte já estavamos de volta.
E foram tantas as tardes no Parque, lembro-me bem: Sorvetes, violão, risos, confidências, anotações, abraços. Dávamos existência às nossas rotinas e enfeitávamos o tédio sempre com algo diferente.
Depois mudamos o Parque pelo apartamento. Eram horas de conversas, sentados no sofá, tomando café, ouvindo alguma música ou deixando o barulho dos carros e ônibus invadirem aquela sala, abusando do silêncio que eu e tu fazíamos. Eu sempre me deixei em evidências para ti, contava coisas que eu não conseguia comunicar nem a mim mesma. Dos teus muitos conselhos, foram poucos os que eu consegui seguir, mas deves reconhecer que para mim algumas coisas não eram questão de escolha, eu precisava meter a cara, me arriscar, me foder, mas antes ter bons momentos que eu contava sorrindo para fazer-te sorrir também.
Eu quis chorar no nosso último abraço, te pedi para ficar, reclamei que não podias deixar-me só, mas depois sorri e disse para ir viver a tua vida, onde a felicidade se encontra do lado de lá. Agora no de cá só existe saudade.
Dos muitos que eu jurei sentir amor, tu és um dos pouquíssimos que fazem o amor, realmente, sempre acontecer aqui dentro. E de tantos que foram embora, tu és o único que se não voltar, eu irei atrás, e sei, com toda a certeza, que essa tua partida esta à parte de mim.

3 comentários:
cachos, que texto!!!
Lindo seu texto!
me identifiquei com ele, mas principalmente "Dos muitos que eu jurei sentir amor, tu és um dos pouquíssimos que fazem o amor, realmente, sempre acontecer aqui dentro. E de tantos que foram embora, tu és o único que se não voltar, eu irei atrás, e sei, com toda a certeza, que essa tua partida esta à parte de mim."
Me sinto assim!
Lindo seu blog!
seguindo!
Gosto da sua narrativa e do Parque.
“...para depois, acabando os assuntos, existirem aqueles outros que passávamos a observar, dublar conversas, tentar adivinhar sobre o que podiam estar pensando.”
Ótimo texto. ;**
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